Afirmação de uma área acadêmica

Viajar é mais que preciso, é necessário. Vital.

Cidades sagradas, pirâmides, templos, catedrais externalizam o “religioso”, o “cúltico”,  a crença ou a crendice, partes indissolúveis do itinerário turístico do “sagrado”, alvo de massiva curiosidade.

Cientistas da religião, por sua vez, empreendem instigante busca, verdadeira viagem insólita[1] adentrando-se nas veias e artérias daquilo que para os outros viventes pensantes é apenas questão de fé ou ilusão.

Desta forma, no quase inaudível eco do passado ou no gritante borbulhar do presente desponta a incipiente “Ciências da Religião”.

Seja bem vindo.


[1] Viagem Insólita (Innerspace).  Warner Bros,  1987. Filme onde o protagonista (James Quaid) é encolhido até o tamanho molecular a bordo de um submarino e ambos miniaturizados,  inseridos num corpo humano.

Análise do discurso religioso: convergências e divergências na análise das principais escolas

Análise do discurso religioso: convergências e divergências na análise das principais escolas

por Carlos Antonio Carneiro Barbosa

À primeira vista, a ADC, Análise de Discurso Crítica (RESENDE; RAMALHO, 2009) [1] parece oferecer, por sua maior proximidade das ciências sociais, uma proposta mais amigável e diluída às Ciências da Religião. Porém, isto não desautoriza, ao nosso ver, o cientista da religião a empreender algumas incursões no campo da Análise de Discurso Francesa que, embora sendo não método, mas gesto de leitura, oferece a possibilidade de se ler nas entrelinhas, mensurar a subjetividade e adentrar-se nos domínios do subconsciente — no que tange, logicamente à questão ideológica. Neste sentido, além das obras de Orlandi, Palavra, fé e poder (1987) [2] e A linguagem e seu funcionamento: as formas do discurso (1996) [3], o livro História das Idéias Linguísticas (ORLANDI, 2001) [4] pode ser bastante útil como demonstração de aplicações práticas da teoria (AD) sob a égide dos instrumentos tecnológicos da linguagem. Outrossim, uma abordagem conjunta face à Análise de Discurso Francesa e à  Análise de Discurso Crítica visando interfaciá-las, teria sua razão de ser, se calcada em um lugar comum, como o fato de que ambas devem sua origem a Focault.

OBS: o artigo completo poderá ser solicitada ao autor. Todos os direitos reservados, registrado na Fundação Biblioteca Nacional ©2011 Carlos Antonio Barbosa.


[1] RESENDE, Viviane  de Melo; RAMALHO, Viviane. Análise de Discurso Crítica. São Paulo: Contexto, 2009.

[2] ORLANDI, Enni Puccinelli. Palavra, fé e poder. Campinas, SP: Pontes, 1987.

[3] _________.  A linguagem e seu funcionamento: as formas do discurso. Campinas, SP: Pontes, 1996.

[4] _________. História das Idéias Linguísticas. Campinas, SP: Pontes, 2001.

Teodicéia segundo Paul Ricoeur: reflexões sobre o livro “O mal: um desafio à filosofia e à teologia”

Teodicéia segundo Paul Ricoeur: reflexões sobre o livro “O mal: um desafio à filosofia e à teologia”

por Carlos Antonio Carneiro Barbosa

Resultado de uma conferencia realizada em 1985, na Faculdade de Teologia da Universidade de Lausane, “O Mal: um Desafio à Filosofia e a Teologia” [1], procura desvelar sob novas luzes a busca constante de Ricoeur pelo enigma do mal já empreendida, por exemplo, em “A Simbólica do Mal” (1960) [2] e “A Simbólica do Mal Interpretada” (1969) [3]. Nesta, enfoca o mal como problema ético e querigmático em contraposição às interpretações apresentadas pela psicanálise e fenomenologia da religião; naquela, faz uso do método hermenêutico para decifrar o sentido filosófico dos mitos do mal encontrados na tradição sumeriana, grega e judaico-cristã. Já a presente obra apresenta o mal como o maior dos desafios enfrentados pela filosofia e pela teologia: como superar a contradição entre a existência de Deus tal qual concebido no imaginário ocidental e a existência do mal nem sempre sofrido em decorrência do fabrico humano? Ricoeur inova justamente aqui: se o mal é um desafio sem igual para qualquer pensador, inclusive para os grandes,  o grande desafio para o autor é um convite a pensar, nem mais, nem menos, mas diferente.

Pensando diferentemente, Ricoeur passa a decompor o problema do mal estratificado na tripla afirmação contundente, porém teoricamente excludente:

  • Deus é todo poderoso.
  • Deus é absolutamente  bom.
  • O mal existe.
OBS: o artigo completo poderá ser solicitada ao autor. Todos os direitos reservados, registrado na Fundação Biblioteca Nacional ©2011 Carlos Antonio Barbosa.

[1] RICOEUR, Paul. O mal: um desafio à filosofia e a teologia. Campinas: Papirus, 1988.

[2] RICOEUR, Paul. La Simbólica del Mal. IN: RICOEUR, Paul. Finitud y Culpabilidad: el Hombre Labil y la Simbólica del Mal. Madrid: Taurus, 1982.

[3] RICOEUR, Paul. A simbólica do mal interpretada. IN: RICOEUR, Paul. O conflito das interpretações. Rio de Janeiro: Imago, 1978.

A Religiosidade Terena

A Religiosidade Terena

por Carlos Antonio Carneiro Barbosa

Neste artigo, estaremos analisando a religiosidade do povo Terêna vista sob o prisma temporal desde seu deslocamento do Chaco paraguaio para o território brasileiro, sua participação na Guerra do Paraguai e sua situação na atualidade. Suas escolhas dentro das opções religiosas apresentadas ao grupo, perpassando as antigas missões católicas dos capuchinhos franceses, a chegada dos missionários católicos italianos em Cuiabá em 1850, a visita e posterior trabalho missionário  – ISAMU, Island South American Mission Union  – entre os Terêna; eventos estes analisados dentro da lógica onde ocorre a chamada terenização do cristianismo expressa pelos conceitos atuais: xamanismo católico e protestantismo indígena, caracterizado sobretudo pela UNIEDAS, União das Igrejas Evangélica da América do Sul.

OBS: o artigo completo poderá ser solicitada ao autor. Todos os direitos reservados, registrado na Fundação Biblioteca Nacional ©2011 Carlos Antonio Barbosa.

Teologia: Ciência e Profissão

Resenha

Gomes, Antonio Maspoli de Araújo.* Teologia: Ciência e Profissão. IN: Gomes, Antonio Maspoli de Araújo (Org.). Teologia: Ciência e Profissão. São Paulo: Fonte Editorial, 2007. P. 12 – 113.

No momento Maspoli celebra o debute do seu décimo livro, “Eclipse da Alma”,[1] Sobre o lançamento, temos a seguinte informação:  “A nova obra trata da depressão sob o olhar da psiquiatria, da psicologia e do aconselhamento pastoral solidário”.[2]

Já em Teologia: Ciência e Profissão, o autor ingressa em termos movediços  da superfície das águas onde só andam os arautos do anúncio dos novos tempos às futuras gerações. Sim, pois Teologia ainda sinonimiza no Brasil, sacerdócio; devoção, não ciência; vocação, não profissão.

Ele se inicia com uma citação de Vitor Hugo por Hans H. Kign: [3]

“[...] O futuro tem  muitos nomes, diz Vitor Hugo:

Para os fracos é o inatingível.

Para os tímidos é o desconhecido.

Para os bravos é a oportunidade”.

A busca do texto é claramente a busca pelo futuro. Futuro da Teologia no Brasil: inatingível, desconhecido, ou diverso em oportunidade? Jornada ao futuro onde se escaneia o passado e suas genealogias: Reforma Religiosa do Século XVI, filha do humanismo. Idéia de liberdade política e econômica originada da doutrina luterana do livre arbítrio. Racionalismo e seu pai, René Descartes.

O autor percebe a dissecação, no germe antropocêntrico cartesiano. A busca nas entranhas do humano, o dono de cada parte. Cada corte precisa estar no competente laboratório do saber. O corte certo, no laboratório certo.  À Ciência compete o corpo. Teologia, Metafísica e Filosofia ficarão cada qual com o seu sub-corte do espírito.

Onde nasce o sujeito?  – inquire, Maspoli, nas entrelinhas. – E nascido, onde hoje se encontra? – completa, em segredo. – Na verdade, o  sujeito nas eras nasce cartesiano, ainda em tenra infância iluminista, unifica o seu eu; tornando-se sociológico, na puberdade. Identitariamente, na Psicologia Social do século XIX, o sujeito chega à maioridade. Wundt caça a identidade nas selvas do humano, longe do aconchego do Self iluminista e longinquamente do sagrado, do divino-divinal. Mead busca o eu no seio nutridor do espaço social. Sullivan e Laing buscam “o louco”, este sujeito inadequadamente socializado. À nova Ciência da Mente compete mudança paradigmática, de Behaviorismo  a modelo cognitivista. Maspoli deflaga o caos, o machado é colocado “à raiz da árvore” (p. 20). E se cair, do tronco cortado da Psicologia Social, brota a Psicologia das Relações Interpessoais.

Mas e a Teologia, Ciência, Profissão, etc? – pergunta o leitor. – O autor responde: “A identidade profissional relaciona-se com  o papel social o qual pertence à ordem das representações” (p. 25). E ainda “No Brasil, a identidade profissional do teólogo está relacionada à práxis pastoral inerente a vocação religiosa” (p. 27). Identitariamente a profissão de Teólogo só existe escamoteada sob a pele do pastor confessional. Pastor, por sua vez, enquanto profissão só se enquadra na categoria “profissional de coveiros e afins”, ironiza, citando exemplo de certa igreja carioca (p.27).

Em construção. Assim define Maspoli a identidade  e a profissão do teólogo em nosso país. Esta construção passa pelo seu maior campo de trabalho: “a pessoa humana” (p. 28). Isto exige do profissional em teologia ser “o homem certo no lugar certo” (ad tempora), reunindo as habilidades preconizadas por Jean Bartoli, com algumas modificações do autor. Inteligência é outro pré-requisito para o Teólogo em  sua relação frente  ao mercado de trabalho “espera-se que o teólogo seja inteligente” (p. 39). Neste particular, o autor elege o modelo das inteligências múltiplas de Howard Gardner, em detrimento ao controverso “QI”.

A construção dos valores éticos do Teólogo ficará bem guarnecida sob a égide da Ética do Monte Sinai, da Ética do Sermão do Monte, e da Declaração Universal dos Direitos Humanos, sintetizadas nas palavras de Jesus Cristo[4]: “Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles, pois esta é a lei e os profetas”.

Há mais de vinte anos a teologia é tratada como profissão no Dicionário das Profissões e no Guia do estudante. Afora isto, caminha a passos largos para a profissionalização.  Maspoli pergunta: “qual o mercado de trabalho para o teólogo?” (p. 50). Responde que a demanda do mercado é muito grande e envolve Igrejas, Faculdades Teológicas reconhecidas pelo MEC, Programas de Pós-Graduação aprovados pelo MEC, centenas de Seminários Teológicos e Institutos Bíblicos, ONGs, Capelanias,  docência do ensino religioso nas escolas do Governo,  Recursos  Humanos, Mercado Editorial… A pesquisa urge na sua co-irmã, Ciências da Religião, cujos acadêmicos mostram-se profícuos produtores do saber científico.

O artigo ainda elenca vasto conteúdo histórico e documentação que cerceia a implantação do campo de Teologia e Ciências da Religião em nosso país: “a teologia levou quase quinhentos  anos para adentrar e encontrar o seu lugar na academia brasileira” (p. 56). Prova de meticulosidade e grandiloqüência na redação é a exposição dos objetivos, perfil dos alunos – apresentação de tabelas com riquezas de detalhes – e Fundamentos legais envolvendo a Graduação, Pós-Graduação Lato Sensu e Stricto Sensu em Teologia e Ciências da Religião, bem como, o status dos Cursos Livres de Teologia oferecidos por Seminários Maiores, Faculdades de Teologia e instituições afins.

Para os bravos é a oportunidade [!]. O reconhecimento oficial da teologia pela academia brasileira em nível de graduação e pós-graduação e todo o efeito cascata advindo deste reconhecimento, é para Maspoli a grande oportunidade para os bravos darem respostas às multidões cambaleantes, embebecidas no vinho misturado pelas gerações passadas onde a intransigência racionalista e o fundamentalismo insipiente, não permitiram a teólogos e cientistas juntos descer a montanha (p. 105). Nas próprias palavras do autor:  “O desafio do teólogo do século XXI é fazer teologia a partir da postura serena e equilibrada herdada pelos mais de cinco mil anos do fazer teológico judaico cristão” (p. 106).

Ao ver deste resenhista,** há engajamento do autor nos ideais defendidos no artigo e, de fato, a fundação da Escola Superior de Teologia da Universidade Presbiteriana Mackezie, a formatação do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da mesma instituição, sua imprescindível contribuição para a aprovação do parecer 063, de 19 de fev de 2004 e toda uma extensa gama de esforços empreendidos por Maspoli neste sentido, conferem atualidade e relevância à escrita do articulista e também organizador da obra homônima. Obra e artigo fazem jus ao devido mérito acadêmico e merecem, de igual modo  estar em exposição no departamento de poesia, na biblioteca eterna (p. 108).


[1] Gomes, Antonio Maspoli de Araújo (Org.) Eclipse da Alma. São Paulo: fonte Editorial, 2010. 290 p.

[2] Lançamento “Eclipse da Alma”. IN: Releases 2010, Acessoria de Comunicação. Universidade Presbiteriana Mackenzie. São Paulo, 18/5/2010.  Disponível em <http://www.mackenzie.com.br/portal/dhtm/assessoria_ comunicacao/imprensa/releases.php?ass=815&ano=2010>. Consulta em: 22/05/2010.

[3] H. KIGN, Han. Uma ética global para a política e a economia mundiais. Petrópolis: Vozes, 1999, p. 471. (apud  Gomes).

[4] Mateus 7:12

* Antonio Maspoli de Araújo Gomes – Teólogo, psicólogo junguiano, doutor em ciências  da religião [UMESP] pós-doutor em história das idéias [IEA-USP] e fundador da Escola Superior de Teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde é coordenador e professor do Programa de Pós Graduação em Ciências da Religião. É membro do laboratório de Psicologia da Religião da USP e membro do CPPC.

** Carlos Antonio Carneiro Barbosa – Teólogo, pastor, escritor, músico, compositor, bacharel em Teologia    [UMESP], mestrando no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde participa do projeto de pesquisas  “Conversão e Identidade no Protestantismo Histórico Brasileiro: Uma Leitura a Partir da Psicologia Social da Religião e da Psicologia Cognitiva”.

O Celeste Porvir: A Inserção do Protestantismo no Brasil

Resenha

Mendonça, Antonio Gouvêa.* O Celeste Porvir: a inserção do protestantismo no Brasil. 3. ed. Prefácio de José de Souza Martins. São Paulo: Edusp, 2008. 372 p.

O Celeste Porvir: a história do livro, a história do homem

Em março de 2008, a Edusp, Editora da Universidade de São Paulo, lançou no mercado a 3a edição de “O celeste porvir: a inserção do protestantismo no Brasil”. Edição de formato e acabamento impecável que coroa o êxito de uma obra que hoje é considerada pela comunidade acadêmica como um clássico nos estudos do protestantismo brasileiro, fruto do profícuo academicismo e esmero do saudoso pesquisador e erudito Antonio Gouvêa Mendonça.

A publicação anterior do livro deu-se em dois momentos distintos. O primeiro (1a edição, Paulinas, 1984) encontra Mendonça à frente do programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da UMESP, após problemas eclesiásticos com a Igreja Presbiteriana Independente, pois em 1978, havia perdido o lugar de professor e reitor na faculdade teológica da própria denominação. O segundo momento (2a edição. Pendão Real / ASTE, 1995), reflete uma aparente mudança em sua relação com a IPI ou nas palavras do próprio Mendonça o qual reconhece o “esforço demonstrado pela Secretaria de Educação, da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, pela direção da Associação Evangélica Literária Pendão Real, e o interesse do Rev. Abival Pires da Silveira, presidente do Supremo Concílio da Mesma Igreja”,[1] Entretanto, de acordo com declaração do próprio Gouvêa em 2004, isto não mudou muito o estado das coisas: “Fui um militante do ecumenismo, o que me causou problemas eclesiásticos e me distancia até hoje de minha denominação”.[2] O Celeste Porvir, em sua 3a edição, reflete a consolidação de uma carreira, o reconhecimento de acadêmicos e representantes eclesiásticos de vários segmentos da cristandade. Ou nas palavras do atual prefacio: “O tema da difusão do presbiterianismo neste país encontrou em Antonio Gouvêa Mendonça o melhor autor que poderia encontrar [...] um dos melhores e mais eruditos conhecedores da história do protestantismo no Brasil”.[3]

Gouveia se inicia com algumas observações sobre a tímida presença protestante no Brasil e as contribuições ao tema do protestantismo que passam agora a ter um cunho mais acadêmico, porém não respondem as questões propostas e aventadas pelo autor.

O arcabouço da obra de Mendonça passa pela tríade:

A História

A Estratégia

A Nova Religião

Três modos sublimes ou profanos de enxergar o protestantismo, afinal a interpretação da realidade é o crivo da audácia, da angústia, da sensatez ou da loucura do artista. Artista: pois mesmo nas mais áridas letras do cientista, este inevitavelmente faz uso da linguagem prosaica; seus tropos e tonos: faz arte.

Leitura perversa encontraria ínfima poeira sobre os armários da História, lodo visco-pegajoso na Estratégia e rudes odores na Nova Religião. Mendonça não lê assim; lê como convertido, porém com plena isenção: cientista insider que domina a visão e a técnica do outsider.  Postura esta que lhe rende o respeito da academia e através da qual o autor acaba eclipsando inúmeros trabalhos de mesmo teor, contemporâneos ao seu que careciam do pão da erudição de cada dia do acadêmico, seu alimento vital.

A História. Mendonça busca águas profundas. Às praias da Terra de Santa Cruz não lhe é suficiente beirar o mar. É preciso adentrar ao oceano. Na costa brasileira, lê os dramas fóbicos do Brasil Colônia e do clero romano ante a iminência de invasão. Corsários, piratas, invasores e protestantes ameaçavam a manutenção do establishment. O protestantismo enfim estabelecido é engessado, encapsulado: “O protestantismo só conseguiu implantar-se definitivamente quando condições políticas e sociais apresentaram possibilidades de neutralizar a presença protestante” (p. 38). Apenas no final do século XIX, já no regime imperial, o clima de tolerância permitiu a implantação em nosso solo, das denominações clássicas do protestantismo.

Gouveia busca na Reforma as raízes do nosso protestantismo sui generis. Discorre sobre os movimentos oriundos das vertentes luteranas e genebrinas suas eclosões na terra de John Knox e suas incursões na Nova Inglaterra, em meio a um puritanismo avesso ao episcopalismo e como este misto de tradições calvinistas e arminianas, antagônicas em essência, se mutualizam em múltiplas aculturações passadas para gerar um novo paradigma no protestantismo a ser modelo de exportação da América do Norte, “o cadinho onde se fundiu o mais poderoso protestantismo, tão diversificado nas suas formas históricas mas com um mesmo e sólido espírito” (p. 82).

Pronunciando de modo diacríticamente correto o discurso formador do protestantismo norte-americano, o autor  embasa com brilhantismo conceitos chave como despertamento e avivamento. O despertar da igreja ante os ataques do racionalismo é achado primaz da re-efervescência religiosa, traduzida nas figuras emblemáticas de Jonathan Edwards e George Whitefield. O lado avivalista, por seu turno, “exalta a centralidade teológica no ser humano como agente moral livre” (p. 88) e subjaz ladeado por doutrinas perfeccionistas. São movimentos emolduradores da panacéia americana do “Destino Manifesto”, uma das molas propulsoras da empresa missionária estadunidense no último terço do século XIX.

A Estratégia. Aqui Gouveia compõe ou recompõe vívidos retratos da história. Poe em xeque a imagem da religião dominante no Brasil, vista a partir dos olhos dos primeiros líderes protestantes. Afirma que tinham um adversário a combater e, para isso, era necessário conhece-lo, formar dele uma imagem bem nítida para que os ataques não se perdessem no vazio.

Observa o estado das coisas no Brasil em meados do século XIX, quando da implantação do Protestantismo. A configuração da vida do brasileiro e sua cosmovisão tinham como epicentro o catolicismo Romano. A luta travada pela disputa de espaço por protestantes como Simonton, José Manuel da Conceição, Eduardo Carlos Pereira e Álvaro Reis, desenrolou-se em três níveis:

Polêmico

Educacional

Proselitista

O autor começa a busca dos níveis; disposto a  entender e sublinhar o nível polêmico da estratégia de penetração protestante no campo religioso brasileiro mas  é no nível da educação que emergem os meios para romper a hegemonia católica. Seria necessário esclarecer o povo, abolir a ignorância e o analfabetismo reinante. A educação como estratégia missionária, nunca deixou de acompanhar os missionários norte-americanos. O ensino do “livre exame” exige acesso direto do indivíduo ao texto sagrado. Visto que o culto protestante centraliza-se no discurso e não no gesto, era sobremodo importante que o fiel mantivesse a  Bíblia aberta na mão, lesse e entendesse. A construção de uma civilização cristã protestante, no modelo anglo-saxão, passava pelo transplante cultural, onde “as escolas paroquiais tinham a função de apoio à pregação conversionista, e os colégios a de introduzir a nova ideologia” (p. 167). De como o protestantismo influencia a sociedade paulista, Mendonça cita o surgimento da elite em São Paulo: as “melhores famílias da sociedade”, “lugar de destaque na sociedade”, “famílias importantes da cidade”, eram prova cabal de que a estratégia não malograra. Evidencia-se nesse momento no Brasil, o Kulturprotestantismus, conjunto de valores positivos para o indivíduo e a cultura surgido da união do liberalismo protestante com a cultura liberal da burguesia. Religião e ideologia eram uma coisa só à vista dos líderes protestantes os quais procuravam de modo indireto e por saturação atingir as classes dominantes, intelectuais e políticos. Gouveia faz digressões da sua história, não a dele propriamente, mas a que lhe deixou saudades; como quando fala da escola de “seu Miguel”: Vital Brasil estudou lá. Do Colégio Piracicabano, raiz de onde brotou a UNIMEP (Universidade Metodista de Piracicaba), ou quando “revive” os primórdios da Escola Americana de Curitiba.

Entretanto, observa Gouveia, as cidades eram inóspitas à nova religião e o presbiterianismo só cresce mais que outros ramos protestantes devido às suas incursões no interior de São Paulo e regiões fronteiriças de Minas Gerais. O segredo estaria no “mundo caipira”.

A População da segunda metade do século XIX afora as elites e classes mandantes e dominantes era em sua grande formada por homens livres. Pobres, brancos, mulatos, mamelucos e negros libertos. O campesinato brasilero tornou-se acessível ao apelo protestante devido à Independência de tais “caipiras” (não sujeitos ao sistema), à liberdade deste homem livre e pobre, à sua mobilidade e margeamento da vida social.

Mendonça reconstrói a teodicéia da religião do homem livre e pobre entregue até então ao catolicismo que “ensinara” a familiaridade exacerbada com o sagrado na expressão das desavenças do fiel que se zanga com o santo de devoção. Sitiantes em seu nomadismo tornaram nômades também os altares e as imagens, num sistema onde o pobre só aceita o padre enquanto nômade, itinerante, numa religiosidade que recusa abertamente ao sacerdote fixo, paroquial.

É neste confronto da plausibilidade de teodicéias. Que os protestantes levam vantagem, pois o Cristo do catolicismo vivia em inoperância e as imagens dos santos nômades não pareciam tão sagradas assim. Há rarefação do campo religioso católico, mais sensível nas zonas pioneiras e assim o protestantismo fronteiriço, não o das cidades, encontra finalmente interstícios para penetrar em espaços claros, não controlados pelos católicos. O Brasil até então estava longe de se protestantizar e não houve o impacto descrito nas literaturas regadas à paixão pelos primeiros desbravadores, havia isto sim, um clima inicial de aceitação. A doutrina protestante ora fugia aos interesses da população, ora parecia

rígida demais. A expansão então se dá na trilha do café, no terceiro quartel do século XIX. Surge a figura do evangelista dos sertões, da escola bíblica nos sítios: “Não se podia caçar passarinhos de estilingue, nem jogar bola de meia no terreiro de café e muito menos ir nadar no remanso do ribeirão. Era domingo” (p. 242).

A Nova Religião. Gouveia vê O Peregrino de John Bunyan encarnado na religião dos caipiras, verdadeira metáfora viva da obra. O individualismo e a peregrinação do pecador em meio a dúvidas e tentações que podem faze-lo perder a rota, até a gloriosa cidade de Deus, refletem  o seu culto, a sua liturgia, Simonton ensina que o céu é o lar dos crentes. Para o autor, o grande doutrinador dos ensinos contidos em O Peregrino é o manual “Salmos e Hinos” (Robert R. Kalley e Sarah P. Kalley), livro comum de cânticos religiosos. Segundo o autor a hinologia clássica calvinista não era facilmente compreendida pelo povo, o que dificultava a sua aceitação. Assim adotar esta coletânea de cânticos sacros, comum a quase todo protestantismo brasileiro e de procedência sincrética – visto na época não haver nenhuma ênfase denominacional –,  tornara-se um facilitador inclusive no ensino doutrinário, uma vez que vinha ao encontro da população ainda ignara, em sua maioria. Gouveia analisa os substratos das canções das igrejas formadas no campesinato brasileiro e os classifica segundo a temática como: peregrino, milenarista e guerreiro,

A Teologia e a música dos avivamentos religiosos ingleses e americanos foram transferidos para o Brasil, mas não apenas isto.  A teologia dos avivamentos, a igreja espiritual, escolasticismo, pietismo e apocalipcismo faziam frente à pobreza e isolamento social, favorecendo o escapismo, assim como o condicionamento religioso dos próprios adeptos.  Gouveia defende a sua tese de que o emprego do hinário “Salmos e Hinos”, com hinos de letra fácil e harmonia mais ao gosto popular, favoreceu a aceitação deste protestantismo mestiço nascido nos Estados Unidos e aculturado até certo ponto na terra brasilis, onde o povo outrora segregado passa a nutrir a esperança do Celeste Porvir.

Do resenhista**: há alguns anos, Washington Olivetto confessou preferir a barulhenta e desajeitada máquina de escrever ao computador, este, segundo o publicitário, rouba-lhe a inspiração. Há de fato muitas maneiras de se escrever um texto. Há quem faça uso da velha e boa máquina de escrever, há os que rabiscam à caneta cadernos de laudas intermináveis. Quem deseja os benefícios da redação interativa, dá asas cibernéticas à imaginação num vôo wireless pela rede mundial de computadores enquanto lapida seu texto.  Entretanto, alguém pode querer usar tão somente o coração… um jovem e forte coração de onde nasce preciosa tese aos 60 anos, outros livros importantes, artigos vitais, até os 84… um lindo prefácio inacabado[4] aos 85… antes do celeste porvir.

“Há uma geração de protestantes para os quais o protestantismo, neles nato, é pungente

saudade, uma saudade dolorida, uma saudade como nenhuma (…) morreu mais um

desses protestantes saudosos (…) esperançosos de um protestantismo

que não chegou a ser e que possivelmente não venha sê-lo”.[5]

Mendonça, 2007


[1] Dos “Agradecimentos da 2a Edição” (p.15).

[2] Augusto, Adailton Maciel. Antonio Gouvêa Mendonça, uma biografia em mosaico. IN: Augusto, Adailton Maciel (Org.). Ainda o Sagrado Selvagem: estudos em homenagem a Antonio Gouvêa Mendonça. São Paulo: Fonte Editorial / Paulinas, 2010. p. 12.

[3] Do prefácio do livro por José de  Souza Martins  (p. 21).

[4] Higuet, Etienne Alfred. Um prefácio inacabado. IN: Estudos de Religião, Ano XXII, n. 34, 257-258, jan/jun. 2008. Disponível em: <https://www.metodista.br/revistas/revistas-ims/index.php/ER/article/download/235/ 243 um prefacio inacabado>. Acesso em: 25/05/2010.

[5] Palavras escritas a propósito da morte de Waldo César, em junho de 2007. Campos, Leonildo Silveira. Dossiê em memória de Antonio Gouvêa Mendonça. IN: Estudos de Religião, Ano XXII, n. 34, 222-226, jan/jun. 2008. Disponível em: <http://editora.metodista.br/revista_rel_34.htm&gt;. Acesso em: 25/05/2010.

* Antonio Gouvêa Mendonça (1922-2007). Curso de Filosofia na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP e, Doutor em Ciências Humanas, especialização em Sociologia pela FFLH da USP. Coordenou a fundação do programa de Pós Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo. Professor de Sociologia da Religião nesta Universidade e professor da Disciplina Clássicos da Sociologia da Religião na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Autor do livro O Celeste Porvir, dentre outros clássicos. Consultor para a criação da Escola Superior de Teologia e do Programa de Pós Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

** Carlos Antonio Carneiro Barbosa – Teólogo, pastor, escritor, músico, compositor, bacharel em Teologia    [UMESP], mestrando no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde participa do projeto de pesquisas  “Conversão e Identidade no Protestantismo Histórico Brasileiro: Uma Leitura a Partir da Psicologia Social da Religião e da Psicologia Cognitiva”.

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